O VAR, árbitro assistente de vídeo, só pode interferir em um jogo para corrigir um erro claro e óbvio ou apontar um incidente grave não visto em quatro tipos de lance: gol, pênalti, cartão vermelho direto e identificação errada de jogador. O árbitro de campo sempre toma a decisão inicial e dá a palavra final, e a revisão nunca pode ser pedida por jogadores ou técnicos.
Quem define as regras do VAR
O uso do vídeo na arbitragem segue o Protocolo do VAR, publicado pela International Football Association Board (IFAB) junto com as Regras do Jogo. As competições podem escolher se usam ou não a tecnologia, mas, se usarem, precisam seguir o protocolo. No Brasil, o VAR estreou na Copa do Brasil de 2018, a partir das quartas de final, e chegou ao Campeonato Brasileiro da Série A em 2019, depois de aprovação unânime dos clubes em reunião na CBF em 22 de fevereiro daquele ano.
Os princípios do protocolo
- Erro claro e óbvio: o VAR não existe para rediscutir lances interpretativos no detalhe, e sim para corrigir equívocos evidentes ou incidentes graves que a arbitragem não viu.
- Decisão inicial do árbitro: o árbitro precisa decidir antes, mesmo que seja deixar o jogo seguir. Não pode “não decidir” e esperar o vídeo.
- A decisão original vale até prova em contrário: ela só muda se as imagens mostrarem claramente que estava errada.
- Só o árbitro inicia a revisão: o VAR e os demais assistentes apenas recomendam.
- A palavra final é do árbitro: não há limite de tempo, porque a precisão é mais importante que a velocidade.
- Ninguém pede revisão: jogadores e membros das comissões técnicas não podem pressionar o árbitro. O VAR checa automaticamente todos os lances elegíveis.

Os lances que o VAR pode revisar
| Tipo de lance | O que pode ser checado |
|---|---|
| Gol / não gol | Infração do ataque na construção da jogada (falta, mão, impedimento), bola fora de jogo antes do gol, infrações de goleiro ou cobrador em pênaltis |
| Pênalti / não pênalti | Infração do ataque na jogada, bola fora de jogo, local da falta (dentro ou fora da área), pênalti marcado por engano ou não marcado |
| Cartão vermelho direto | Impedir chance clara de gol, jogo brusco grave, conduta violenta, morder ou cuspir, gestos ou palavras ofensivas e, desde a revisão mais recente do protocolo, segundo amarelo claramente errado que resulta em expulsão |
| Identidade trocada | Cartão aplicado ao jogador errado ou à equipe errada |
| Escanteio (opção da competição) | Escanteio claramente mal marcado, se a correção puder ser feita na hora, sem atrasar o reinício |
Nos lances de gol, pênalti e chance clara de gol, a análise pode recuar até o início da fase de ataque que levou diretamente ao lance, incluindo a forma como a equipe ganhou a posse.
Como funciona a revisão, passo a passo
1. Checagem
Toda jogada elegível passa por uma checagem automática na cabine. Na maioria das vezes, ela é silenciosa: nada de errado é encontrado e o jogo segue. Se for preciso segurar o reinício, o árbitro leva o dedo ao ponto eletrônico e estende o outro braço.
2. Recomendação
Se o VAR identificar um provável erro claro, informa o árbitro e recomenda a revisão. O árbitro também pode iniciar a revisão por conta própria, se suspeitar de algo grave que não viu.
3. Revisão
Se o lance ainda estiver em andamento, o árbitro espera um momento neutro, sem chance clara de ataque, para parar o jogo. Então faz o sinal da TV, desenhando um retângulo com as mãos. A revisão pode ser feita de duas formas:
- Revisão no monitor de campo (OFR): o árbitro vai à área de revisão e assiste às imagens. É o caminho indicado para lances subjetivos, como a intensidade de uma falta, a interferência em um impedimento ou um toque de mão.
- Revisão só pelo VAR: o árbitro decide com base na informação da cabine. É usada em questões de fato, como a posição de um jogador no impedimento, o ponto de contato, o local da infração e se a bola saiu.
4. Decisão final
O árbitro repete o sinal da TV, comunica a decisão, aplica eventuais cartões e reinicia o jogo de acordo com o que foi decidido. Desde a temporada 2025/26, as competições podem permitir que o árbitro anuncie e explique a decisão no sistema de som do estádio.
O VAR em quatro etapas
- Checagem automática de todo lance elegível
- Recomendação ao árbitro, se houver erro claro e óbvio
- Revisão no monitor de campo ou apenas pela cabine
- Decisão final do árbitro, com o sinal da TV e o reinício
O que o VAR não pode fazer
- Revisar o primeiro cartão amarelo de um jogador.
- Mudar uma decisão de reinício, como lateral ou escanteio, depois que o jogo foi reiniciado. Após o reinício, só podem ser revistas troca de identidade e infrações de expulsão como conduta violenta, cusparada, mordida ou ofensas graves.
- Ser acionado a pedido de atletas ou técnicos.
O protocolo também protege o processo: jogadores, reservas e membros da comissão técnica que entram na área de revisão do árbitro recebem cartão amarelo, e quem invade a sala de operação do vídeo é expulso. Fazer o sinal da TV de forma excessiva para pressionar a arbitragem também rende advertência.

As mudanças de 2026 no Brasil
Na assembleia geral de 28 de fevereiro de 2026, a IFAB autorizou o VAR a revisar expulsões por segundo amarelo claramente errado, a corrigir cartões dados à equipe errada e, como opção das competições, a rever escanteios mal marcados. As medidas foram aplicadas na Copa do Mundo de 2026.
Em agosto de 2026, CBF e clubes aprovaram a adoção dessas regras no futebol brasileiro. A revisão do segundo amarelo que gera expulsão passou a valer de imediato nas Séries A e B, na Copa do Brasil masculina e feminina e na Série A1 feminina. A checagem de escanteios ficou aprovada apenas para 2027.
Também em 2026, a Série A passou a usar o impedimento semiautomático a partir da 20ª rodada, com 28 a 32 câmeras por estádio enviando imagens à central de VAR da CBF, no Rio de Janeiro.
Perguntas frequentes
O técnico pode pedir o VAR?
Não. Pelo protocolo da IFAB, só o árbitro inicia uma revisão, a partir de recomendação do VAR ou de suspeita própria.
O VAR pode revisar cartão amarelo?
Não o primeiro. Desde 2026, pode revisar o segundo amarelo quando ele resulta em expulsão e estiver claramente errado.
Existe tempo limite para a revisão?
Não. O protocolo afirma que a precisão é mais importante que a velocidade.
Por que às vezes o árbitro vai ao monitor e às vezes não?
Lances de interpretação, como a força de uma entrada, pedem revisão no monitor. Lances de fato, como a posição em um impedimento, podem ser resolvidos só com a informação da cabine.
Fontes consultadas: IFAB, Protocolo do VAR; FIFA, comunicado da assembleia geral da IFAB de 2026; CBF; Diário do Nordeste; Gazeta Esportiva; Folha Vitória; Bundesliga; Diario de Pernambuco.




